quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Exemplo de vida, craque argentino cego inspira Conca na reta final

Ídolo máximo do Fluminense, líder do Brasileirão, Darío Conca teve seu dia de fã. Na tarde de terça-feira, o argentino desmarcou todos os seus compromissos para conhecer um dos grandes esportistas de seu país. Um atleta com quatro participações em Mundiais pela seleção, dois títulos da competição e duas medalhas olímpicas. Referência em sua modalidade. Mas que não conquistou a admiração do camisa 11 tricolor por nenhum desses itens do extenso currículo. Fera no futebol de cinco (para cegos), Lucas Rodriguéz o cativou pela superação e virou exemplo não somente para as últimas sete rodadas do nacional como para toda a vida.
Conca Lucas Rodriguez deficiente visualLucas Rodriguéz e Darío Conca durante encontro no Rio de Janeiro (Foto: Cahê Mota / Globoesporte.com)
Baixinho, franzino e com uma habilidade fora do comum, o argentino em muito se assemelha ao compatriota que para muitos é o melhor jogador do Brasileirão. Ambos, por exemplo, defenderam o River Plate, onde Lucas foi tricampeão argentino. Aos 29 anos, ele é o primeiro estrangeiro a defender uma equipe brasileira da modalidade e sonha repetir Conca também no sucesso em território tupiniquim. No lugar da visão de jogo que é característica do tricolor, porém, está uma sensibilidade auditiva incrível para seguir o barulho dos guizos (colocados dentro da bola) e levar a Urece (entidade que defende) ao título nacional.
Em busca do mesmo objetivo nos últimos meses de 2010, os “hermanos” se encontraram no condomínio onde Conca vive, no Rio de Janeiro. E já no primeiro abraço a tradicional timidez do apoiador foi quebrada pelo bom humor do novo amigo.
- O que me deixa tranquilo é que somos da mesma altura (risos) – disse Lucas.
Como resposta, ele recebeu as boas-vindas de Darío e a certeza de que, apesar da rivalidade, a recepção no Brasil será a melhor possível.
- Todos me tratam muito bem. Sou muito feliz aqui.
Isso mostra que o sonho pode ser real. Basta correr atrás. Sempre vou torcer pelo Lucas. Às vezes reclamamos de uma coisa ou outra, e ele está mostrando que a vida não é assim. Espero algum dia jogar metade do que ele joga"
Darío Conca, apoiador do Flu
Bastaram, então, algumas jogadas de Lucas Rodriguéz para que o jogador do Flu somasse ao sorriso fácil uma feição de fascinação. A cada chute, drible ou passe do compatriota, Conca se demonstrava impressionado com sua habilidade e força de vontade. O ídolo virou fã e se derramou:
- Isso mostra que o sonho pode ser real. Basta correr atrás. Todos os jogadores de futebol passam por momentos difíceis, mas ele é exemplo para todos nós. O maior exemplo de superação que já conheci. Sempre vou torcer pelo Lucas. Ainda mais com tanta humildade e simpatia. Às vezes reclamamos de uma coisa ou outra, e ele está mostrando que a vida não é assim. Espero algum dia jogar metade do que ele joga.
Cego desde o nascimento, o ala da seleção argentina de futebol de cinco há 13 anos realmente é um exemplo de superação. Atuando em equipes da modalidade desde os 10, ele teve seus primeiros contatos com a bola na base do improviso. Diante da paixão do pai e dos irmãos pelo futebol, resolveu matar a curiosidade enrolando a “pelota” com sacolas plásticas para segui-la pelo som. Não parou mais.
- Mas as sacolas estouravam. Acabávamos com todas – revelou mais uma vez bem-humorado.
Conca se arrisca em nova modalidade e manda bem
ConcaConca com a venda para jogar futebol de cinco
(Foto: Cahê Mota / Globoesporte.com)
Diante da perplexidade com que Conca ouvia cada história, o convite aconteceu de forma natural, e o jogador não recusou arriscar uma troca de passes com o compatriota. Só que, logicamente, com uma venda nos olhos. De Lucas, recebeu uma frase curta, mas de grande incentivo.
- O mais importante é tentar.
O nervosismo e a ansiedade atrapalharam um pouco nas primeiras tentativas, mas a qualidade técnica prevaleceu e a tabelinha passou a fluir rapidamente. Foi quando veio a parte mais difícil: conduzir a bola. Nada, porém, que uns conselhos do amigo não resolvessem.
- Que bom, hein?! Já está pronto para jogar na Urece – gritou Lucas ao ouvir o barulho bem compassado dos guizos.
E Conca pode ter certeza de que o elogio não foi para fazer média. Ele não foi o primeiro jogador profissional a tentar a sorte ao lado do atleta paraolímpico. Em 2000, em um programa de TV, Riquelme, Crespo e Cláudio Lopéz também se arriscaram. O resultado?
- Nenhum deles sequer conseguiu chegar perto da bola (risos). Foi divertido. Eles ficaram perdidos.
A nova experiência encantou o ídolo tricolor, que não escondeu a emoção.
- Fiquei até arrepiado. Foi uma sensação muito diferente. Algumas pessoas podem pensar que é fácil, mas não é, não. Às vezes no esporte se preocupam com o dinheiro, mas a felicidade que ele tem com a bola é maior, mostra que futebol é paixão. Agradeço ao Lucas por essa oportunidade. Ele está me ajudando a superar muitas coisas.
Silêncio (quase) total no superclássico
Lucas Rodriguez deficiente visualLucas Rodriguéz mostra habilidade
(Foto: Cahê Mota / Globoesporte.com)
Realizar o inesperado, por sinal, é algo que Lucas acostumou-se a fazer nos 19 anos em que joga futebol de cinco. “Milagres” como, por exemplo, deixar o Monumental de Nuñez em pleno superclássico entre River e Boca em silêncio. Ou quase isso.
- Só que a torcida do Boca não ficou totalmente quieta, não (risos) – admitiu ele, que é torcedor “xeneize” e se apresentou em jogo-exibição da modalidade durante o intervalo da partida.
Mas isso só quando está em Buenos Aires. Ao presentear Conca com uma camisa da Urece e outra da seleção argentina, Lucas recebeu em troca uma do Tricolor devidamente autografada e decretou:
- Agora sou Fluminense. Será lindo se o Conca ganhar o Brasileirão e eu conseguir o título também para a Urece. Tomara que isso aconteça. Seria muito lindo para a Argentina.
Torcida declarada e presente. Convidado por Conca, Lucas Rodriguéz estará no Engenhão no duelo entre Fluminense e Grêmio, nesta quinta, às 21h (de Brasília), pela 32ª rodada do Brasileirão, e recebeu a promessa de apoio também no Campeonato Brasileiro de Futebol de Cinco, de 2 a 7 de novembro, na Andef, em Niterói - e que terá entrada gratuita.
- Vai ser um prazer ver um jogo dele – concluiu o tricolor.
Conca Lucas Rodriguez deficiente visualConca e Lucas Rodriguéz se divertem em bate-papo (Foto: Cahê Mota / Globoesporte.com)

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