sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Muricy admite pressão na reta final: ‘A situação não permite tranquilidade’

Salão nobre das Laranjeiras cheio à espera da última entrevista coletiva de Muricy Ramalho antes da decisão. Respostas longas, demoradas. Bem esclarecedoras sobre a personalidade de um treinador que pode conquistar o quarto título brasileiro em cinco anos.
A palavra que o resume é trabalho. E será calcada nela que o Fluminense entrará em campo, domingo, às 17h (de Brasília) para enfrentar o Guarani. Basta uma vitória. Mas a suposta facilidade esconde uma semana aflitiva.
Muricy admite que não está tranquilo. Aliás, sugere que se alguém do time estiver, que vá para casa dormir. O treinador é afeito a emoções, tem noção que o estresse o domina. Mas é cristalino ao dizer o que não fará para motivar os jogadores.
- Os técnicos têm mania de motivar o jogador acima do que precisa. Não somos preparados. Negócio de vídeo de filho e pai chorando... Não acredito nisso. O cara chora, entra em campo derrotado. Quando perde, cadê o vídeo?
Confira os pontos da entrevista coletiva de Muricy
Técnicas motivacionais
“Clube de futebol deveria ter um psicólogo constante. Mas um que use a psicologia do esporte e faça parte da comissão técnica. Tem que ser uma pessoa preparada. Os técnicos têm mania de motivar o jogador acima do que precisa. Não somos preparados. Negócio de vídeo de filho chorando, papai, não acredito nisso. O cara chora, entra em campo derrotado. Quando perde cadê o vídeo? Por isso que falo em boa estrutura, campo de treinamento.
Em clube grande, técnico não precisa ser motivador, mas sim cobrador. Em clube pequeno, aí sim. Tem que abraçar o cara, pedir para correr senão vai ficar ali para o resto da vida. Em clubes grandes não tem que ser motivador, mas cobrador de resultados. Meu lado motivacional é mostrar o quanto é importante ganhar um Brasileiro para um clube e para eles. Isso que eles precisam saber. Já vi vários times perderem porque a pilha foi tão grande que passa da bola”.
Preparação para a final
“Continuo fazendo as coisas da mesma forma. Gosto de fazer exercício. É importante porque o estresse é pesado. Ajuda a me dar tranquilidade. Não mudo minhas coisas. Claro que evito sair para todo lado. Já não sou chegado, ainda mais perto da final. Muda mais o foco, no que pode melhorar, estudar o adversário. Mas como pessoa não muda”.
Por que não tirou o time do Rio?
 "Porque vi que não estava atrapalhando. Às vezes a concentração longa em vez de ser boa, fica ruim. Porque o jogador só fala naquilo. A rotina é muito dura, campeonato é muito longo. Se não atrapalha não tem por que mudar.
Apoio da torcida
“Eles estão nos ajudando desde o começo. As pessoas vêm para as Laranjeiras desde o início. Treinamentos são abertos para não criar antipatia com a torcida. É legal o convívio. É uma torcida calma,. Agradecemos muito tudo isso”.
Negativa à Seleção
 “Só fiz aquilo para defender meus princípios. É bobagem dizer que imaginava que brigaria o título. Sempre penso nos que eu ganhei, aprendo mais do que na derrota, como o Palmeiras. Aprendo muito mais na vitória”
“Aqui é trabalho”
“Sou um técnico que procura ter responsabilidade, dar o resultado em todos os times que passo. Por isso estou sempre no limite. De trabalho, de estresse. Só com sofrimento e doação se consegue alguma coisa. Técnico tem que aprender todos os dias, observar o que acontece no mundo. Me considero um técnico trabalhador. Essa é a palavra”.
Lembrança de Telê
 “Imagem do Telê vem toda hora. Antes de eu ser auxiliar, ele foi meu treinador. Em todas as conversas que tenho de futebol, ele sempre aparece. Porque está na minha história como técnico. Foi um professor. Me espelhei nele e somos muito parecidos. Ele só um pouquinho mais chato do que eu. No começo da minha carreira observava muito os treinadores. Fui auxiliar do Telê, depois fiz investimento para ser do Parreira. Eu era o técnico quando ele assumiu, tinha convites, mas preferi ficar para passar as coisas para ele. Queria ser um treinador diferente. Olhava o mercado e via que havia várias promessas de treinadores que não davam certo porque mudavam muito. Começavam bem, mas recebiam a proposta e mudavam. Depois se perdiam e não se tornavam grandes treinadores. O técnico que permanece tem mais chance de ganhar, porque conhece mais as pessoas. Ganhei em lugares complicados, como na China, duas vezes no Sul, no Nordeste. Técnico tem que ser constante e para ser constante precisa ficar”.
Capitão no título
 “Sou um técnico que não tem mania. Tem uns que proíbem brinco, celular, calça rasgada, essas porcarias que eles usam. Em relação a capitão é problema dos jogadores, do clube. Só me meto no time, aí não tem como. Se for o Fred ou o Conca a faixa está bem entregue”.
Inspiração em 2009
“O que eles fizeram no fim do ano passado foi incrível. Se for analisar, é algo quase impossível de repetir. O time que consegue isso é capaz de tudo. Já conversei com eles várias vezes porque não sou treinador inseguro para reconhecer o mérito do que passou. Tanto é que votei no Cuca como técnico do Brasileiro deste ano. Treinadores têm essa frescura de não falar bem dos outros”.
Nervosismo pré-final
“Tranquilo não estou. Digo aos jogadores que quem estiver vai para casa, pode dormir. Tem que estar ligado e fazer o melhor. Não é loucura. Tem que ser inteligente. A situação não permite tranquildade. Tem que estar preparado e é o que faço”.
Rei dos pontos corridos
“No meu currículo, o que mais ganhei foi no formato mata-mata, porque a maioria dos campeonatos que disputei foi nesse formato. No mata-mata existe o imponderável. Erro de arbitragem, falha do jogador e não dá para recuperar. Pontos corridos é regularidade, todo dia acontece alguma coisa no clube, algo diferente. Tem que vender jogador. Aí quando o time ganha, as pessoas se empolgam e você precisa trazer os jogadores de volta para a realidade. E no Brasileiro você começa com dez times prontos para ganhar o título. Não permite o erro muito grande. Se você tiver 20% de erros a chance aumenta”.

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