A arte de tentar outra vez: Ronaldo
e superação caminham lado a lado
Título da Copa de 2002 depois da convulsão em 1998 e da cirurgia no joelho direito em 2000 foi o auge de uma história repleta de reviravoltas
O momento mais sublime da carreira de Ronaldo - os braços abertos depois de vencer o alemão Oliver Kahn pela segunda vez na decisão da Copa do Mundo de 2002 (veja o vídeo acima) - parecia obra de ficção para quem em abril de 2000 chocou o mundo ao desmoronar no gramado do estádio Olímpico de Roma. O tendão patelar do joelho direito estava escancaradamente rompido. A imagem era forte, e o grito de desespero com a camisa do Inter de Milão contra o Lazio, pela final da Copa do Rei, não deixava dúvidas do tamanho da dor. Parecia o fim.
Ronaldo ficou um ano e três meses parado e só voltou a jogar pela Seleção na vitória por 1 a 0 sobre a Islândia. O amistoso no Castelão, em Fortaleza, foi no dia 27 de março de 2002, menos de três meses antes da estreia na Copa. O atacante só fez mais três jogos com a camisa do Brasil até o gol contra a Turquia, o primeiro da vitória por 2 a 1 no início da caminhada rumo ao penta - enfrentou Portugal (1 a 1) e os "gigantes" Catalunha (3 a 1) e Malásia (4 a 1). Parecia loucura confiar no camisa 9. Felipão apostou alto e riu por último. Viu Ronaldo marcar oito gols na trajetória do título.
Ronaldo comemora com Oliver Kahn batido: o auge após meses de drama (Foto: Getty Images)A superação de 2002 também aliviou a dor da derrota para a França em 98, depois de sofrer uma convulsão no dia da final. E se torna ainda mais surpreendente se levado em conta que a lesão de 2000 já era a terceira no joelho direito.
Ronaldo se machucou no local pela primeira vez em 1996. Quando jogava pelo PSV, passou por uma cirurgia para raspagem da cartilagem do tendão. Ficou quatro meses parado. Em 1999, já pelo Inter de Milão, rompeu parte do tendão patelar em um jogo contra o Lecce, pelo Campeonato Italiano. Passou cinco meses afastado dos campos e voltou justamente no fatídico confronto com o Lazio.
Além do drama do joelho direito, Ronaldo ainda teria mais duas operações na carreira. Em 2006, quando defendia o Real Madrid, veio ao Brasil para realizar uma cirurgia de raspagem de duas calcificações no osso da tíbia da perna esquerda. Ficou um mês e meio parado. Em 2008, um pesadelo similar ao de 2000: pelo Milan, mais uma lesão de tendão patelar, desta vez no joelho esquerdo.
Na época da cirurgia de 2008, em entrevista à repórter Sônia Bridi, Ronaldo cogitava parar de jogar. Mas dizia que a vontade de mais uma volta por cima era maior.
- Acredito em destino. Acredito que eu esteja aqui para cumprir uma missão. E talvez a minha missão seja essa. Mostrar para pessoas que não têm problemas e que vivem reclamando da vida, de coisas mínimas. Mostrar para o mundo que qualquer que seja o problema a pessoa tem que acreditar e se superar.
Foi apenas o primeiro capítulo de um semestre de títulos paulista e da Copa do Brasil. No primeiro, foram oito gols em dez jogos, com direito a uma pintura na primeira partida da decisão contra o Santos, encobrindo Fábio Costa na vitória por 3 a 1, na Vila Belmiro. Na competição nacional, fez um dos gols da vitória por 2 a 0 sobre o Inter na primeira partida da decisão, no Pacaembu. No jogo de volta, deu passe para gol de André Santos no empate em 2 a 2.
Faltava a Libertadores, obsessão dos corintianos. Em 2010, Ronaldo até fez gol, mas o time não conseguiu superar o Flamengo. Neste ano, o atacante fracassou contra o Tolima. Uma famosa peça publicitária de 2003 mostrava a volta por cima de Ronaldo como símbolo da campanha do governo com o slogan "brasileiro não desiste nunca". A música tema era "Tente outra vez", na voz de Raul Seixas. Ronaldo ainda tem dois pés para cruzar a ponte, mas o peso já não comporta mais tentativas. Ele já tentou mais do que o suficiente.
Nenhum comentário:
Postar um comentário