terça-feira, 21 de junho de 2011

Dorival: 'Neymar voltou às origens. Hoje ele só está atrás do Messi'


Ex-treinador santista garante não ter mágoas pela demissão e rasga elogios para o craque e Paulo Henrique Ganso



Dorival Junior ainda pelo Santos (Foto: Cleber Mendes) Dorival Junior conquistou o Paulistão e a Copa do Brasil pelo Santos, em 2010 (Foto: Cleber Mendes)

Impossível não associar o sucesso da atual equipe do Santos a Dorival Júnior. A sequência de glórias começou com a chegada do treinador, que hoje comanda o Atlético-MG.
O primeiro semestre fabuloso em 2010, quando o Alvinegro superou a marca dos cem gols e conquistou os títulos do Campeonato Paulista e Copa do Brasil, cimentou o caminho para que o clube chegasse à decisão da Copa Santander Libertadores pela quarta vez na história.

O próprio técnico, com sua fala mansa e pausada, reconhece seus méritos nessa trajetória, muito embora a pulverize com uma imensidão de outros profissionais, de Vagner Mancini a Muricy, passando por Vanderlei Luxemburgo, Márcio Fernandes, Adilson Batista e Marcelo Martelotte.

Modéstia excessiva! E, se ainda dá a entender que poderia ter dado sequência ao trabalho no Peixe, não guarda mágoas do personagem símbolo de sua demissão: Neymar. Muito pelo contrário. Faz elogios rasgados ao atacante e é categórico ao classificá-lo como o segundo melhor jogador do mundo no momento, só atrás do argentino do Barcelona, Lionel Messi.

Dorival, que, como jogador, teve em Muricy o último treinador, diz torcer pelo título santista nesta quarta-feira, no Pacaembu, como um coroamento de um grupo que adjetiva de “o melhor das américas”. Foi o que revelou em uma entrevista.Na conversa, ainda definiu Ganso como “cerebral” e Neymar como “genial”. Confira abaixo a entrevista:

Você acha que o título da Libertadores que pode ser conquistado pelo Santos na próxima quarta tem uma parcela sua?

Não é um trabalho que começou comigo. Teve início um pouco lá atrás, com o Márcio Fernandes, depois Vagner Mancini, aí Vanderlei e depois a minha entrada. A partir daí sendo trabalhado pelo Adilson, Marcelo e agora o Muricy. São etapas, o Santos foi vencendo cada uma delas. O ano passado foi um ano muito importante para a confirmação dos trabalhos. Acredito que o último momento dessa formação e estabilidade foi alcançada em 2010. Acho que tive uma pequena parcela, sim, mas o mais importante de tudo foram as etapas que o clube foi conseguindo vencer.

O Santos de 2010 dava muito mais show do que o atual, mas tinha falhas defensivas. Acha que seria possível ganhar a Libertadores atuando daquela maneira?

Naquele primeiro momento do Paulista criou-se aquela dúvida: será que vai chegar à final ou vai fazer uma equipe jogando bonito e sem resultados na prática? Aí passou o Paulista e na Copa do Brasil houve a indagação: será que vai passar ou vai ser uma equipe só de regional? O Santos foi superando etapas e sempre saindo fortalecido de cada uma delas. A equipe está preparada para qualquer situação. Ali estão os meus jogadores, Alex Sandro, Danilo, Arouca, Adriano, os zagueiros, o Zé Eduardo lá na frente...

Não pensa que se não fosse aquele problema com Neymar você estaria na Libertadores?

Nada na vida acontece por acaso. Se eu ficar lamentando... logicamente se você me perguntar, você gostaria de estar lá? Lógico! Qualquer profissional gostaria.  Nosso trabalho no ano passado não havia sido finalizado, tínhamos muita coisa para trabalhar, foi interrompido de uma maneira que nenhum de nós gostaríamos. Torço para que não aconteça com ninguém. Saímos com um aprendizado grande, para diretoria e jogadores ficou essa impressão. Houve um crescimento profissional em todos os aspectos para o grupo do Santos, ajudou no amadurecimento de todos. Para qualquer profissional seria importante estar numa final de Libertadores. Talvez pudéssemos naquele momento continuar com o trabalho, mas tenho de ter a consciência de que era o momento...

Você ainda mantém contato com jogadores, diretoria?

Mantenho contato quase que semanal com vários jogadores, pessoal da diretoria, presidente. Tenho recebido ligações de todos eles, com as pessoas que trabalhavam conosco lá no dia a dia. Ficou uma grande amizade, não houve um problema sequer, a saída foi tranquila. O Muricy está de parabéns por tudo que alcançou. Amanhã quem sabe terei uma oportunidade de disputa, talvez pegue uma equipe no meio do caminho, não sei... Tenho a consciência de que fiz o melhor.

Percebe um amadurecimento do Neymar depois daquele episódio polêmico com você no duelo diante do Atlético-GO?

Eu entendo o que aconteceu com o Neymar, jamais vou aqui ficar punindo ou tentando procurar uma explicação. O que mudou a vida do Neymar naqueles quatro, cinco meses do ano de 2010, foi uma coisa impressionante. Entendo a reação que ele teve. Para ele foi importantíssimo. Neymar voltou às suas origens, aquele garoto brincalhão, o menino que se preocupava só em jogar futebol. Ele começou a direcionar mais a carreira. Era necessário que sentisse que alguma coisa estava errada. Hoje está mais amadurecido e preparado. Não tenho dúvida nenhuma de que ele vai ser, num curto espaço de tempo, o melhor jogador do futebol mundial. É só esperar que isso vai acontecer.

Nota da Redação: Em partida pelo Brasileirão de 2010 contra o Atlético-GO, na Vila Belmiro, Neymar xingou o treinador à beira do campo por ele ter escolhido Marcel e não o craque para bater um pênalti nos minutos finais. Reprimido no vestiário, o atacante voltou a bater boca com companheiros e atirou uma garrafa de isotônico contra Ivan Izzo, auxiliar de Dorival. Até mesmo o técnico do rival, René Simões, falou que estavam criando um “monstro”. A diretoria tratou de punir Neymar com multa em 30% de seu salário e considerou o assunto por encerrado. Para Dorival Júnior, porém, não bastava tê-lo tirado de um jogo diante do Guarani: ele também deveria ficar fora do clássico contra o Corinthians, na Vila Belmiro. O presidente Luis Álvaro Ribeiro afirmou que o técnico havia dado a palavra que o atacante jogaria, e portanto alegou quebra de hierarquia. Com isso, Dorival acabou demitido.


Vê Neymar perto dos grandes astros mundiais? Já está no patamar de Messi, Cristiano Ronaldo?

Sinceramente, para mim, ele só esta abaixo do Messi. É superior ao Cristiano em todos os aspectos. É muito mais agudo que o Cristiano, mais decisivo, mais genial... Com o passar dos anos ele também vai atingir o patamar do Messi. Se focar a carreira só naquilo que está fazendo, o Neymar vai antecipar as etapas pela idade que possui, pelo potencial que tem e pelo amadurecimento que está mostrando.

Acha que aquele tombo do ano passado foi determinante no aspecto do comportamento do Neymar, da maneira como agora ele se dirige aos árbitros, técnicos?

Não é que ele mudou. Ele voltou a ser o Neymar de antes. Voltou à normalidade. A mudança que aconteceu na vida dele ao longo daqueles meses, mesmo que fosse um profissional estruturado, haveria alguma alteração. Imagine para um garoto de 18 anos (sua idade na época). Houve uma alteração brusca, falamos com ele para se atentar  com tudo o que estava acontecendo na vida dele. O episódio foi a gota d’água para ele. A partir dali ele voltou a ser o mesmo Neymar: um garoto tranquilo, puro, brincalhão... Para ele foi muito importante essa situação e contribuiu para que voltasse a ser o grande jogador que é. É um menino que todo mundo gosta e que tem um carisma incrível.

No ano passado, quando a dupla explodiu, Ganso era o mais cabeça, tranquilo, e Neymar, o rebelde, intempestivo... Esse ano Ganso entrou em polêmicas com a diretoria e Neymar está amadurecendo e brilhando para o mundo. Como vê o Ganso nesse momento?

A situação de renovação em cima da própria lesão cria um envolvimento do profissional. Talvez naquele momento ele tenha dado uma ou outra declaração. Mas o Paulo não é assim. Até por ter mais dois, três anos a mais do que o Neymar, ele mostrava-se mais equilibrado, mais tranquilo. Logicamente que não podemos cobrar do Paulo, até porque teve uma lesão que demorou sete meses para se recuperar, ainda vai oscilar um pouco. Foi um episódio, não podemos avaliar um profissional por uma ou duas situações. Logo já queremos incriminar ou absolver de uma vez por todas. O Paulo é um grande profissional, também como Neymar é um excepcional jogador. Neymar é genial e Paulo, cerebral. Os dois se completam em campo, se ajudam, fazem o ambiente do Santos muito bom de se conviver. Tudo o que foi falado do Paulo é muito cedo para se tirar conclusões, não podemos rotular um profissional desse jeito.

Muricy já se queixou de que os técnicos não são muito unidos. Como avalia o trabalho dele, o que ele faz para conseguir os títulos que venceu nos últimos tempos?

É a simplicidade do trabalho. Ele passou por equipe pequenas, médias e grandes, e solidificou sua carreira na experiência, no dia a dia do campo. Não é um cara que fica se envolvendo com tudo dentro do clube. Muricy é franco no trato, isso que o nosso país não tem. Estamos carentes em todos os sentidos. As duas das principais entidades estão falidas, que são família e educação. Com isso perdemos os nosso valores, as pessoas não respeitam mais, fazem questão de humilhar, criticar, de tirar qualquer pessoa do sério. Não só no futebol isso. Na política existe uma corrupção desenfreada, os partidos são quadrilhas políticas. O país está sem freio.

Isso nos faz lembrar que você ficou chateado quando disseram que tinha acerto com o São Paulo.

Eu não criaria caso com um clube (Santos) que tinha me dado tudo. Eu só tomei uma decisão que não podia voltar atrás. Eu ficava vendido com aquelas notícias do São Paulo. Nunca cobrei, mas nunca vi ninguém se retratar depois. Eu não tinha o porquê de deixar o Santos, ainda mais como foi. Estava satisfeito e um dia, talvez, tenha chance de terminar o meu trabalho.

Como analisa o duelo entre Santos e Peñarol? Tem favorito?

Acho que tecnicamente o Santos é o melhor time das Américas, pelos jogadores que aí estão. É uma decisão, e toda decisão é traiçoeira. Requer cuidado especial, pois o Peñarol deu mostras nessa competição já, conquistando a vaga na maioria das vezes fora dos seus domínios. Deu mostras do quanto é uma equipe perigosa e sabe como nenhum time aproveitar os contra-ataques. Serve para o Santos como alerta e tenho certeza de que o Muricy está preparado para que esta, talvez, seja a jogada mortal do Peñarol.


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