sábado, 23 de julho de 2011

Jennings vê Teixeira, Grondona e Leoz como resquícios das ditaduras


Futebol


André Sender e Bruno Ceccon São Paulo (SP)

AFP
Juntos, Júlio Grondona, Nicolás Leoz e Ricardo Teixeira somam 79 anos de comando no futebol da América do Sul
A democracia é uma novidade para as nações sul-americanas, dominadas por ditaduras até a segunda metade do século passado. Ricardo Teixeira, presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Júlio Grondona, mandatário da Associação Argentina de Futebol (AFA), e o paraguaio Nicolas Leoz, responsável pela Conmebol, assumiram o poder na época em que seus respectivos países não realizavam eleições diretas, e são vistos pelo jornalista Andrew Jennings, famoso por denunciar irregularidades na FIFA, como resquícios do período militar."É surpreendente que eles continuem, porque tivemos problemas horríveis com a ditadura militar na América Latina, mas elas foram derrubadas uma a uma e o sistema democrático foi colocado em prática. Estamos evoluindo em todos os sentidos, enquanto o futebol ainda é o relicário dos ditadores. Tenho uma foto do Grondona com o Videla, se divertindo com aquele assassino monstruoso. Ele agora é o responsável pelas finanças da Fifa. Já o Leoz está envolvido em subornos, sabemos disso e podemos provar. Assim como o Teixeira", afirmou Jennings à GE.Net.
O Brasil foi governado por ditadores militares entre 1964 e 1985. Ricardo Teixeira assumiu a CBF em janeiro de 1989, já na gestão de José Sarney, mas antes das eleições diretas, realizadas em novembro do mesmo ano. Grondona, por sua vez, passou a comandar a AFA em 1979, um ano depois da controversa Copa do Mundo da Argentina, aproveitada por Jorge Rafael Videla para fortalecer seu regime. Já Nicolás Leoz foi presidente da Associação Paraguaia de Futebol de 1971 a 1973 e 1979 a 1985 e alçado ao posto máximo da Conmebol em 1986, tudo dentro da gestão de 35 anos de Alfredo Stroessner, que morreu exilado em Brasília.
Fernando Dantas/Gazeta Press
O escritor escocês Andrew Jennings é autor do livro "Jogo Sujo. O Mundo Secreto da Fifa: Compra de Votos e Escândalo de Ingressos"
Se os ditadores militares ficaram para trás no continente, o trio de cartolas não apenas se perpetuou no poder nas associações, mas também passou a ocupar posição de destaque na Fifa. Júlio Grondona é vice-presidente sênior do Comitê Executivo da entidade, do qual Teixeira e Leoz também fazem parte - os três são os únicos representantes da América do Sul. O mandatário da CBF, inclusive, é um dos possíveis candidatos a suceder o suíço Joseph Blatter nas eleições presidenciais previstas para 2015.Os número são grandes: Ricardo Teixeira, 64 anos, preside a CBF há 22 anos; Júlio Grondona, 79 anos, ocupa o cargo máximo na AFA há 32 anos; Nicolás Leoz, 82 anos, manda na Conmebol há 25 anos. Juntos, os três somam 79 anos de poder. As seguidas denúncias de suborno e corrupção parecem não afetar os cartolas, acostumados a protagonizar calorosos encontros nas reuniões promovidas pela Fifa na Suíça.
Para Jennings, o próprio presidente da entidade máxima do futebol mundial é próximo a ditadores, como Robert Mugabe, 87 anos, presidente do miserável Zimbábue desde 1987 e notório violador dos direitos humanos. Ricardo Teixeira também mandou a seleção brasileira ao país, a menos de dez dias da Copa do Mundo da África do Sul-2010, para disputar um jogo com a equipe nacional local. O amistoso gerou críticas, por servir de propaganda do regime.
"Nesse momento, enquanto nós conversamos, o Sepp Blatter está no Zimbábue, apertando as mãos do presidente Mugabe. Onde o Blatter estava antes das eleições da Fifa? Mianmar, um país para onde não mandamos nossos líderes. Para onde foi Blatter no dia seguinte àquela eleição ridícula da Fifa? Ele estava no Azerbaijão, com o presidente, não apenas as autoridades do futebol. Nós sabemos que lá não há imprensa livre, repórteres são torturados, é uma ditadura de um bando de ladrões, todos nós sabemos. Aparentemente, isso não incomoda Blatter", disse o escritor.
As graves denúncias de corrupção que marcaram o último pleito presidencial da Fifa levaram o reeleito Joseph Blatter, 75 anos, há 13 no comando, a pensar em maneiras de tentar lustrar a imagem da entidade após os recentes arranhões. Uma das ideias do cartola suíço é convidar o ex-secretário de estado dos Estados Unidos, Henry Kissinger, para atuar como consultor. A possibilidade não empolga Andrew Jennings, para quem o plano divulgado pelo cartola é apenas uma artimanha divulgada com a finalidade de tentar distrair a opinião pública.
AFP
Joseph Blatter visitou o presidente do Zimbábue Robert Mugabe em nome da Fifa e foi alvo de críticas internacionais
"Hoje em dia, ele tem uma empresa chamada Kissinger Associates e trabalha para as grandes marcas. Então, não acho que o Blatter vá chamá-lo, pode ser uma ameaça para ele. O Kissinger já tem 88 anos e não acho que ele vai sentar durante meses numa mesa para ficar mudando a constituição", disse o jornalista, sarcástico. "Acho que ele vem com uma bala de prata, coloca em cima da mesa e fala para o Blatter: 'ou você sai, ou vai ser executado'. Mas essa é uma maneira triste de resolver essa questão", completou.Kissinger exerceu grande influência na política externa dos Estados Unidos entre 1969 e 1977. O norte-americano ainda tem sua imagem associada aos bombardeios do Laos e do Cambodja, realizados durante a Guerra do Vietnã e citados por Jennings. "Estive em Lausanne, na Suíça, há 12 anos, quando estava sendo investigado o escândalo de Salt Lake City, do Comitê Olímpico Internacional [a cidade subornou dirigentes para sediar os Jogos de Inverno de 2002]. O Kissinger estava lá [participou da investigação] e todo mundo se esqueceu do bombardeio do Cambodja. É uma coisa que não se deve esquecer", disse.
Kissinger trabalhou nas administrações dos presidentes Richard Nixon e Gerald Ford, durante a Guerra Fria, quando os Estados Unidos se esforçaram ao máximo para manter a América Latina sob controle e viam com simpatia as ditaduras militares que dominavam o continente. Os norte-americanos chegaram a intervir diretamente na região, como, por exemplo, na queda do presidente socialista chileno Salvador Allende, no dia 11 de setembro de 1973. A Operação Condor, uma aliança entre os ditadores do Cone Sul, teve a aprovação do país.
AFP
Três dias antes da Copa de 78, o ditador argentino Videla visitou a seleção e conversou com o técnico César Menotti
Membro da Juventude Peronista, movimento de oposição ao governo militar, na juventude, Nestor Kirchner dizia já ter sido preso por sua atividade política. Em março de 2004, o então presidente determinou a retirada dos quadros de Jorge Rafael Videla e Roberto Bignone, antigos ditadores, da Escola Superior de Mecânica da Armada (uma espécie de DOPS argentino) em um ato polêmico e de alto valor simbólico. Atualmente, a presidente Cristina Kirchner, viúva de Nestor e também ex-ativista de esquerda, aproveita a Copa América de maneira estratégica.Cristina anunciou sua candidatura à reeleição no mesmo evento em que apresentou, em rede nacional, o programa "LCD para Todos". De acordo com o governo, o projeto que pretende facilitar a compra de aparelhos de televisão de alta definição aos mais pobres foi lançado para que os argentinos acompanhassem a Copa América, que tem seis de suas oito sedes administradas por kirchneristas. Até Júlio Grondona se aliou a atual gestão e aprovou a compra dos direitos de transmissão do Campeonato Nacional por parte do governo por cerca de R$ 300 milhões em uma medida de intenso apelo eleitoral.
No Brasil, Ricardo Teixeira tem grande influencia no meio político. O deputado federal Anthony Garotinho (PR-RJ) chegou a recolher boa parte das assinaturas necessárias para instaurar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) com a finalidade de investigar a CBF e o Comitê Organizador Local (COL) da Copa do Mundo de 2014. O ex-atacante Romário, atual deputado federal pelo PSB-RJ, foi um dos que apoiaram a medida. Em março, Ricardo Teixeira, que preside as duas instituições, viajou a Brasília para fazer lobby contra a proposta e conseguiu barrá-la.
AFP
Cristina Kirchner e Júlio Grondona se uniram para nacionalizar a transmissão televisiva do Campeonato Argentino

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