terça-feira, 23 de agosto de 2011

Contrato de amistoso da Seleção em 2008 teve 12 irregularidades

Contrato de amistoso da Seleção em 2008 teve 12 irregularidades
LNET! revela convênio (e seus problemas) que custou R$ 9 milhões aos cofres do Distrito Federal

Brasil x Portugal - Amistoso 19/Novembro/2008 (Foto: Marcelo Sayão/EFE) Brasil venceu Portugal por 6 a 2 no amistoso disputado em novembro de 2008 (Foto: Marcelo Sayão/EFE)



A celebração do contrato entre a Ailanto Marketing Ltda. e o governo do Distrito Federal para realização do amistoso entre Brasil e Portugal, em Brasília, em novembro de 2008, teve pelo menos 12 irregularidades. O convênio foi firmado pelo então governador do DF José Roberto Arruda e pelo seu secretário de Esportes Aguinaldo Silva. Documentos do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) e da Procuradoria Geral do Distrito Federal (PGDF), aos quais o ESPORTE.COM teve acesso com exclusividade, constataram as falhas, que não impediram a sangria de R$ 9 milhões de recursos dos cofres públicos.

A Ailanto tem como sócio o presidente do Barcelona e amigo de Ricardo Teixeira, Sandro Rosell. A empresa recebeu o direito exclusivo de organizar o jogo, que marcou a reinauguração do Bezerrão, estádio na cidade satélite do Gama.

O parecer da PGDF, órgão responsável pela análise jurídica, diz que o processo de contratação da Ailanto seria juridicamente impossível nos termos apresentados. A procuradoria determinou ao governo não "pagar nenhum centavo de real" à empresa.

A principal falha diz respeito aos R$ 9 milhões que seriam pagos à Ailanto. Segundo o parecer, "não há qualquer comprovação de como se chegou ao valor."

Outras questões levantaram suspeitas no MPDFT, que também detectou irregularidades. O órgão propôs ação civil pública para ressarcir o Governo do Distrito Federal e punir os citados.

A Ailanto foi constituída em maio de 2008, menos de quatro meses antes da assinatura do Termo de Compromisso com o governo do DF para a organização da partida.

O contrato final foi firmado uma semana antes do amistoso, quando, segundo o MPDFT, "as tratativas para o jogo já estavam obviamente consumadas".

O ESPORTE.COM apurou que a conta do Santander que recebeu o pagamento foi aberta em setembro de 2008, mesmo mês em que o Termo de Compromisso foi assinado.

Vanessa Precht, sócia da Ailanto, não retornou as ligações da reportagem.
COM A PALAVRA: Guilherme Peres, Subprocurador-geral
da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ)
'Parece que houve uma urgência criada'
As questões apontadas na ação do MP são pertinentes. Não
é razoável acreditar nesta urgência na contratação da Ailanto.
Todos sabem que um jogo da Seleção não é organizado de
uma hora para outra. O fato do orçamento ser um valor
redondo e sem justificativas também chama a atenção.

Caso houvesse concorrência, o valor teria sido mais baixo.
Creio que há muitas outras empresas habilitadas para a
prestação deste tipo de serviço.

O que pareceu foi que houve uma urgência criada, que
permitiu a ausência de estudos consistentes e a discriminação
exata dos gastos. Uma empresa tem todo direito ao lucro,
mas até este valor deveria estar expresso no contrato
celebrado pelas partes.


Rombo poderia ser de R$ 18 mi
As exigências feitas pela Procuradoria Geral do DF no parecer sobre o contrato entre o GDF e a Ailanto evitaram que o rombo nos cofres públicos fossem ainda maior, chegando a R$ 18 milhões.

As partes não cumpriram todas as determinações. No entanto, ao menos corrigiram os pontos mais críticos da primeira versão da minuta contratual.

Inicialmente, a Ailanto propôs que o GDF arcasse com todas as despesas de responsabilidade da empresa, como passagens aéreas e hospedagem das delegações. O governo acatou a cláusula contratual, mas esbarrou na PGDF.

No fim, a Ailanto acabou se livrando das despesas, já que foram cobertas com a renda do jogo.

A redação do contrato também era dúbia em relação a seu valor final. A minuta sugeria que o GDF teria de pagar R$ 9 milhões à empresa e bancar R$ 9 milhões das despesas de organização, totalizando R$ 18 milhões.

As irregularidades:

1. O projeto básico apresentado pela Ailanto, segundo o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), não reunia elementos básicos exigidos por lei, por exemplo, as etapas de execução.

2. Não havia comprovação de como se chegou aos R$ 9 milhões. A Procuradoria Geral do DF (PGDF) cobrou cópias de contratos e faturas de prestação de serviços da Seleção na época.

3. Não havia planilha com detalhes dos gastos.

4. A PGDF elaborou parecer em que considerou inviável a contratação da Alianto. Para que o convênio fosse firmado, 11 exigências teriam de ser atendidas. Nem todas aconteceram.

5. Não bastassem as alterações, o novo contrato teria de voltar à Procuradoria para análise jurídica definitiva. Também não aconteceu.

6. Parte dos documentos pedidos pela PGDF foram apresentados. Alguns em espanhol e sem a devida tradução.

7. Segundo o MPDFT, o Termo de Compromisso entre GDF e Ailanto surgiu de "forma inusitada". Inexplicavelmente, ele foi firmado em setembro de 2008, um mês antes da abertura do processo para contratação.


8. A cláusula segunda do contrato cita documentos que, de acordo com a PGDF, não estavam nos autos do processo administrativo.


9. O contrato foi firmado em 12 de novembro de 2008, uma semana antes do jogo. Para o MPDFT, "não é com uma antecedência de sete dias que se consegue trazer a Seleção." O anúncio do amistoso ocorreu no fim de setembro.

10. Ao adquirir os direitos, o GDF deveria ficar com a renda da partida. Sem ato jurídico para tal, a Federação Brasiliense de Futebol (FBF) levou as receitas e arcou com as despesas do jogo.

11. No borderô, há gastos que, por contrato, deveriam ser bancados pela Ailanto, como segurança, ingressos, decoração e buffet, passagens e hospedagem. Nada foi pago por ela.


12. Foram emitidas notas de empenho conforme determinado. No entanto, o pagamento ocorreu de forma distinta, após autorização direta do então governador do DF, José Roberto Arruda.



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