quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Surge o Maior Gênio das Pistas

 
10/01/2004 - Alexandre Passos de Matos


Mais uma vez, a discussão sobre quem é o melhor de todos os tempos. Atualmente, muitos defendem que o maior piloto da história é Michael Schumacher e seu impressionante retrospecto, de 6 títulos mundiais e mais de 70 vitórias, recordes absolutos. Mas Ayrton Senna da Silva possivelmente é o piloto mais talentoso da história do automobilismo. Mas agora não é uma discussão sobre quem é o melhor, mas sim uma história sensacional, que conta a primeira demonstração de talento de Senna na F-1 e um resultado final extremamente inusitado.
Grande Prêmio de Mônaco, no tradicionalíssimo circuito da cidade de Montecarlo, onde nos anos subsequentes Ayrton Senna se tornaria rei, vencendo 6 vezes este GP. Estamos no ano de 1984, quando o piloto brasileiro fazia sua temporada de estréia na F-1, pilotando um carro limitado, da equipe Toleman (que mais tarde se tornaria Benetton e depois Renault). Mesmo com um carro nestas circunstâncias, Senna chega a Mônaco, sexta etapa do mundial, com 2 pontos, conquistados com dois 6º lugares, nas etapas da África do Sul (logo em sua segunda corrida) e na Bélgica (onde também conseguiu sua primeira vitória, em 85). Porém não conseguiu largar em Ímola e teve o motor quebrado na França.
Mas foi em Mônaco que ele deu seu primeiro espetáculo na F-1. Sem jamais ter corrido naquela pista, Senna larga com sua Toleman em 13º. Caía um verdadeiro dilúvio naquele domingo em Montecarlo, tanto que aquela foi a corrida mais lenta da F-1 desde 1950. Como confirmaria durante toda a sua carreira, Senna foi deixando um a um todos os pilotos para trás. Fechou a primeira volta em oitavo; na décima-quarta já era o quarto colocado. Para se ter uma idéia do que aquilo representava, basta lembrar quais pilotos estavam na pista naquele dia: Nélson Piquet, atual campeão, Niki Lauda, futuro campeão de 84, Keke Rosberg, campeão em 82, Alain Prost, Nigel Mansell, apenas para ficar nos que conquistaram títulos mundiais. Não eram tempos de "babas", como atualmente.
Sem tomar conhecimento de ninguém, Ayrton partiu em uma busca alucinada pela primeira colocação. Na 16ª volta, estava em terceiro. À sua frente, as duas poderosíssimas McLaren, equipadas com motor Porsche, com Prost em primeiro e Lauda em segundo. Nesta volta, Senna ultrapassou com extrema facilidade o austríaco, saindo numa velocidade infernal à caça da outra McLaren.
Ao assumir a segunda colocação, Ayrton estava a mais de 30s atrás de Prost. Bastaram dez voltas para ele colocar seu inexpressivo carro na cola do superbólido da McLaren. Visivelmente era questão de tempo a conquista da primeira colocação.
Neste momento, o diretor da prova, o belga Jackie Ickx, ex-campeão mundial de F-1, alegando motivos de segurança (esta decisão foi totalmente controversa), interrompeu a prova, no momento em que Ayrton Senna buscava o vácuo e ultrapassava Alain Prost. Por ter interrompido a prova no meio de uma volta, o resultado final ficou sendo o da última volta completada, com Alain Prost em primeiro e Ayrton Senna em segundo. Como a prova não teve ao menos 2/3 de sua duração completada, apenas metade dos pontos foram atribuídos aos pilotos. Com a vitória, Alain Prost conquistou 4,5 pontos, Ayrton Senna, 3 e Niki Lauda, 2.
Desse modo, Ayrton Senna teve sua primeira vitória tirada de suas mãos. Disse ele após a prova: "O que se poderia esperar? Afinal este é o circo em que estamos, eles nunca iriam deixar a Toleman e eu vencê-los, logo em Mônaco. Mas acho que conseguimos mais publicidade desta maneira do que com a vitória. Foi fantástico!". Naquele dia o garoto do capacete amarelo mostrava ao mundo da velocidade um pouco do que era capaz de fazer.
Ao final do campeonato, Niki Lauda sagrou-se tricampeão mundial, apenas meio ponto à frente do vice-campeão Alain Prost. Mas, diferentemente do que sempre se falou acerca deste resultado, a interrupção não tirou o título de Alain Prost. Se a corrida de Mônaco não tivesse sido interrompida - ou a tivesse sido mais tarde -, Alain Prost não teria vencido e sim provavelmente chegado em segundo. Porém, em vez de ganhar os 4,5 pontos da "meia" vitória, teria ganho 6 do segundo lugar "inteiro", acrescentando 1,5 ponto ao seu total. Porém Niki Lauda ganharia 4 pontos com o terceiro lugar "inteiro" e não 2, com a interrupção. O resultado ainda daria o título mundial a Niki Lauda, com 1 ponto à frente de Prost. Prost só seria o campeão se tivesse vencido esta corrida sem interrupção.
Ainda houve mais um fato especial com Ayrton Senna em sua temporada de estréia. Na décima-terceira etapa, Senna abandonou o GP da Áustria, mas acertou sua ida para a Lotus em 85. A direção da Toleman ficou furiosa com o anúncio oficial da Lotus, que teria acertado um contrato de 3 temporadas com Senna. Alex Hawkridge, diretor da Toleman, tinha acertado contratos de patrocínio contando com Senna na equipe no ano seguinte. Como retaliação, Hawkridge, mostrando seu contrato e uma cláusula que permitia à equipe trocá-lo, contratou o italiano Pierluigi Martini para disputar o final da temporada de 84 no lugar de Senna.
Ayrton aceitou a punição e, na corrida seguinte, viu Martini sequer se classificar para o grid de largada. Frustrado, sem opções e sem dinheiro, Hawkridge teve que engolir seu orgulho e chamar Ayrton de volta. Nas duas últimas etapas, Ayrton bateu na penúltima e ficou em terceiro na sua última corrida pela Toleman. No pódio de Estoril, Senna recebeu uma homenagem dos mecânicos da equipe, que estenderam uma faixa com os dizeres: "A Toleman nunca mais será a mesma sem Ayrton Senna".


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