08/01/2004 - Alexandre Passos de Matos
Acompanhe a crônica da decisão do campeonato estadual do Rio de Janeiro de 2001, que deu o quarto tricampeonato para o Flamengo, é no mínimo uma atitude saudosista. Afinal, o Flamengo não anda muito bem das pernas (sendo muito bonzinho) e aquele foi o último grande momento do time até hoje, ganhando na sequência o tricampeonato estadual e a Copa dos Campeões, atropelando o Bahia, o Cruzeiro e o São Paulo. Mas isso é uma outra história.
Esta história é sobre a final do estadual do 2001, disputada num sábado à tarde, em 27 de maio. Muitas histórias a respeito deste jogo histórico foram contadas. A diferença é que esta aqui é apresentada sob a ótica de um torcedor apaixonado. Foi como eu vi o jogo, do setor verde das arquibancadas do Maracanã.Na decisão, pela terceira vez consecutiva, Flamengo e Vasco, frente a frente. O Flamengo havia conquistado o bicampeonato em 1999-2000 com times bem inferiores ao Vasco. Nestas ocasiões o time rubro-negro era formado em sua maioria por jovens valores revelados no clube.
Mas desta vez parecia que o Vasco daria o troco pelos dois vice-campeonatos anteriores. Por ter a melhor campanha durante todo o campeonato, jogava por dois empates, ou por uma vitória e uma derrota pelo mesmo saldo de gols. E, diferentemente dos anos anteriores, venceu o primeiro jogo por 2 a 1, de virada. O sérvio Dejan Petkovic fez o primeiro gol para o Flamengo. Depois dos 40min do segundo tempo, o Vasco virou, com gols de Viola e Juninho Paulista.
Na semana seguinte, o Vasco poderia perder por um gol de vantagem e ainda assim conquistaria o título. A torcida vascaína, traumatizada com os dois vice-campeonatos, desta vez achava que a história seria diferente, mas ainda respeitando muito o Flamengo e a sua torcida. Fosse em outra situação, o Vasco já teria cantado vitória com uma semana de antecipação.
Porém, diferentemente de 99 e 2000, o time do Flamengo não era inferior ao do Vasco. Na pior das hipóteses, eram times equivalentes. O Vasco tinha os Juninhos, o Paulista e o Pernambucano, jogando o fino. Ramón e Viola vinham bem também. Ainda tinha o Romário. Já o Flamengo tinha em Edilson uma arma perigosa, artilheiro do campeonato. Tinha um grande goleiro, Júlio César e uma dupla de zaga das melhores do país, com Juan e o craque paraguaio Gamarra. E tinha Petkovic, que não vinha jogando muito bem, brigando com a balança, mas tinha feito um Campeonato Brasileiro sensacional no ano anterior.
Fui ao jogo com uma galera grande, como a ocasião pedia. Tínhamos que empurrar o Flamengo, pois o time precisava vencer e ainda por no mínimo 2 gols. Mesmo com tudo parecendo estar contra, chegamos ao estádio muito confiantes.
O Flamengo, como não poderia deixar de ser, partiu pra cima do Vasco. E de tanto pressionar, marcou o primeiro gol, num pênalti convertido por Edílson, numa jogada em que o falecido lateral Clébson derrubou o lateral do Flamengo Cássio depois de ser driblado.
Com 1 a 0 no placar, esperava-se que o Flamengo tentasse decidir logo a parada, marcando o segundo gol. Mas não foi o que aconteceu. Desfalcado de Romário, lesionado (acho que na verdade estava com medo, mas tudo bem), o Vasco passou a controlar o jogo. Resultado: empatou a partida no final do primeiro tempo e jogou um balde de água fria na torcida do Flamengo, que fazia um barulho ensurdecedor.
O segundo tempo começou como o primeiro, com o Flamengo pressionando. Mas com uma diferença: o Petkovic que voltou do vestiário para o segundo tempo não era o mesmo jogador apagado que jogou o primeiro. Correndo muito, lutando como nunca tinha visto ele fazer, Petkovic chamou para si a responsabilidade de decidir o jogo, honrando o Manto Sagrado número 10 que Zico imortalizou.
Oito minutos do segundo tempo, Petkovic arma um carnaval ao lado da área, pelo lado esquerdo. Cruza com extrema precisão e coloca a bola na cabeça do pequeno Edílson, que cabeceia para o gol. Flamengo 2 a 1, mas ainda era insuficiente.
Desnecessário dizer que a torcida do Flamengo foi à loucura. Passou a gritar ininterruptamente. Petkovic, um europeu acostumado ao calor da torcida brasileira (jogara no Vitória-BA), virou o capeta. Até dar carrinho na defesa - e recuperar a bola - vi sérvio fazer. O Flamengo tentava de tudo, Petkovic tentava de tudo, o Vasco se defendia como podia, mas nada de sair o terceiro gol.
Comecei a ficar triste. Desta vez, com um time melhor, não iríamos ganhar? O tempo passava, mas nenhum torcedor do Flamengo arredava pé do Maracanã. A torcida do Vasco, encolhida, só fazia rezar pra acabar o jogo e aquela pressão.
Quarenta minutos, o técnico do Flamengo, o Velho Lobo Zagallo, vai pro desespero e coloca o atacante Roma no lugar do Reinaldo. Na sua primeira participação, Roma pega a bola, dribla o primeiro marcador e é derrubado pelo segundo. Falta de longa distância. Quarenta e um minutos. Os refletores do Maracanã são acesos. Viro para um amigo do meu lado e digo: "Acenderam as luzes pra iluminar a nossa volta olímpica". O comentarista rubro-negro Washington Rodrigues, o Apolinho, exclama pelo rádio: "São Judas Tadeu acabou de chegar ao Maracanã!". O lateral Alessandro, substituído por Maurinho, começa a rezar no banco de reservas. Pet ajeita a bola com carinho. Hélton arma a barreira, a despeito da grande distância da falta. Digo para o meu irmão: "É agora!". Pet parte pra bola. Chuta. A bola parece que sairá longe do gol. Penso em voz alta: "Filho da puta, isolou a bola!". De repente, a bola desenha uma inacreditável parábola e vai na direção do ângulo esquerdo do gol do Vasco. O goleiro Hélton dá um salto espetacular, parece que vai alcançar a bola. Sobra um espaço do tamanho do diâmetro da bola entre a mão de Hélton e a trave. O espaço certinho pra bola passar. Um milímetro pra algum lado e nada de gol. Mas Pet estava endiabrado. Hélton ainda trisca na bola, mas esta entra no único espaço disponível. Vai morrer no fundo da rede.
A torcida enlouquece de vez. Nem consegui ver o Petkovic correndo como um alucinado para a lateral do campo. Àquela altura eu já estava encoberto por uns 5 torcedores que pularam nas minhas costas. Pet desaba no chão, ainda sem se dar conta do tamanho do feito que tinha acabado de realizar. O Barretto quase começou a chorar, meu irmão Daniel ajoelhava-se nas arquibancadas e, com as mãos aos céus, parecia agradecer a São Judas Tadeu.
Os gritos de "Vasco é o time da virada, Vasco é o time do amor", que eram entoados com timidez, foram substituídos por alucinados "1, 2, 3... 4, 5, 1000. Time da virada é a puta-que-pariu" e "Vice de novo". O Flamengo consegue o que parecia impossível: faz 3 a 1 e conquista o tricampeonato, de modo heróico, com recheio sérvio. O Flamengo era tricampeão estadual pela quarta vez. Mais um recorde do maior time do Brasil.
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